logosphera.com
ß Version | YEAR 1     
    Material Público
 
  
  Os Estudos Clássicos na era da Inovação e da Tecnologia, por T. N. Mitchell
Original: The Classics in an Age of Innovation and Technology . T. N. Mitchell. Faculdade de Trinity, Dublin
In: CLASSICS IRELAND 1994 Volume 1, University College Dublin, Ireland.
Tradução: Elisa de Carneiro Moraes, monitora de Estudos Clássicos I / UFPR 2003.

palestra proferida pelo Prof. Dr. Mitchell, Reitor da Faculdade de Trinity e Presidente Honorário da Associação de Estudos Clássicos da Irlanda, à Conferência Inaugural da Associação Clássica da Irlanda, no Centro da Indústria (University College Dublin), em  25 se março de 1993.

Há uma geração, o grego e o latim eram matérias obrigatórias no currículo da maioria das escolas de ensino médio irlandesas e ocupavam um lugar central dentro das faculdades de ciências humanas das universidades. Seu valor educacional era aceito sem questionamentos e eram vistos como a base ideal para uma variedade das carreiras.

Os últimos trinta anos trouxeram uma mudança dramática, não somente na Irlanda, mas em todo o mundo ocidental. O grego praticamente desapareceu de nossas escolas de ensino médio e o latim passou a ser estudado somente por uma pequena porcentagem de estudantes do segundo grau. As razões são muitas e bem conhecidas. O rápido desenvolvimento industrial nos anos 60, pôs uma nova ênfase nos estudos técnicos e científicos e trouxe uma expansão significativa no número de disciplinas oferecidas nestas áreas. As matérias comerciais também aos poucos foram se estabelecendo nos novos currículos. A introdução do ensino gratuito em 1967 propiciou a existência de um corpo mais heterogêneo de estudantes e a necessidade de prover uma maior variedade de matérias para diferentes habilidades e interesses. Isso deu um impulso adicional aos estudos técnicos e comerciais, e abriu espaço nos currículos até mesmo para atividades manuais. O ingresso na Comunidade Européia (hoje União Européia) garantiu um novo interesse nas línguas continentais, e o alemão, o espanhol e o italiano começaram a aparecer em muitas escolas ao lado do francês.

Tudo isto significou uma grade bastante abarrotada. Matérias como o grego e latim tiveram que ceder espaço aos recém-chegados e competir com eles. E elas não tiveram um bom desempenho nestas circunstâncias. Uma nova preocupação com o crescimento econômico e o avanço tecnológico bem como uma nova noção de relevância e utilidade na educação focalizou o ensino nos meios mais rápidos de aquisição de habilidades específicas para o mercado e questionou o valor de todos os estudos que tinham uma aura acadêmica e que produziriam mais uma elite cultural e intelectual que uma força de trabalho tecnicamente eficiente e tecnologicamente inovadora. Os estudos clássicos, que lidam com um passado e línguas remotas, não teriam provável utilidade em Bruxelas e nas salas de aulas européias começaram a soar deslocados, fora das necessidades da nova era e da nova Europa.

Houve ainda outros fatos, nos anos sessenta, que debilitaram ainda mais a situação dos estudos clássicos no sistema de ensino. Seminários católico-romanos, em razão do uso do vernáculo [= a língua do país, no Brasil, o português] na liturgia, e ansiosos por excluir o menor número de pessoas possível, retirou o latim das exigências de admissão. Isso trouxe um rápido declínio no número de estudantes de latim, particularmente nas faculdades diocesanas. Um golpe ainda mais sério deu-se nos anos setenta, quando as universidades, em parte influenciadas pelos insistentes questionamentos sobre os pressupostos e diretrizes educacionais e por uma antipatia geral contra todo tipo de pré-requisito, deixou de exigir o latim como pré-requisito para matrícula. Ficou cada vez mais difícil persuadir o estudantes a escolher o grego ou o latim numa gama extensiva de matérias disponíveis, e ainda, persuadir os administradores escolares para continuar oferecendo e promovendo essas matérias.

Estes fatos obviamente afetaram, num segundo plano, a posição dos Estudos Clássicos dentro das universidades. Os números despencaram porque poucos estudantes entraram na universidade com qualquer conhecimento dos idiomas ou do mundo clássico. Os Departamentos de Estudos Clássicos responderam enérgica e imaginativamente com cursos intensivos de idioma para iniciantes e novas habilitações, mas eles tiveram que enfrentar as novas percepções de relevância e utilidade e o freqüente descaso do governo, das agencias financiadoras e até mesmo das autoridades universitárias. Foi uma batalha difícil e houve algumas grandes perdas.

E a batalha ainda está longe de terminar. Resta ainda um sério risco de que, num segundo plano, os estudos clássicos fiquem limitados a um grupo pequeno e seleto de escolas e que, em muitas universidades, sobrevivam apenas frágil e restritamente. A razão para meu pessimismo é que, enquanto há um consenso crescente de que a educação continua assumindo maior importância na realização da satisfação pessoal, do sucesso profissional e do avanço do bem-estar geral de sociedade, o nível de pragmatismo e do estreito utilitarismo, evidentemente presente no pensamento educacional, está aumentando ao invés de diminuir.

O desenvolvimento econômico está se tornando mais dependente que nunca do domínio e da exploração da tecnologia. Isso continua aumentando a pressão para uma maior ênfase no treinamento técnico, num segundo plano, e em ciência e tecnologia, num terceiro plano. Essa pressão é elevada ainda mais pelo fato que a revolução tecnológica mudou o caráter do mercado de trabalho e criou uma severa escassez de trabalho em muitas partes do mundo. Isso resultou numa compreensível preocupação com a geração de empregos e com o desenvolvimento industrial necessário para gerá-los e em assegurar aos jovens as habilidades técnicas para contribuir em tal desenvolvimento e assegurar o próprio emprego em uma era tecnológica.

Há, portanto, mais do que nunca, por parte dos governos, da industria, dos pais, de alguns pedagogos e de um excessivo número de estudos, tanto da Comunidade Européia como nacionais, um preconceito poderoso em favor de um currículo educacional que tenha como objetivo principal a transmissão, pelo caminho mais curto e rápido, de habilidades técnicas que tenham uma aplicação prática imediata e específica. Alega-se que estudantes devem deixar a escola de ensino médio com um alto nível de habilidades vocacionais, especialmente aqueles alunos que não irão para a universidade, e que aqueles que irão, se formarão com uma qualificação completa e adequada para o mercado de trabalho.

Esta abordagem da educação é bem ilustrada pelo tom geral e pelas recomendações do Relatório Culliton. O Relatório sustenta que o presente sistema educacional é excessivamente acadêmico, o que parece significar que muitas das matérias ensinadas são não-técnicas e não-vocacionais. Ele rejeita o valor de tal educação acadêmica afirmando que esta “provê uma base pobre para um futuro treinamento vocacional ou industrial”. E prossegue, estabelecendo que “o necessário agora é concentrar-se na eficiência da educação e do sistema de treinamento adequando-os à necessidade de mão de obra para o desenvolvimento industrial. Um grande esforço para reverter a tendência dos últimos anos e por uma nova ênfase no treinamento vocacional e técnico é a única atitude que pode trazer benefícios em termos de progresso industrial.

O Green Paper é menos parcial na sua abordagem e defende um equilíbrio entre os setores tecnológico e das ciências humanas, mas ainda assim dá ênfase às expressões "empreendimento" e "tecnologia", e aos meios pelos quais o sistema educacional contribui mais diretamente ao desenvolvimento econômico.

Há ainda uma pressão particular para se privilegiar matérias aplicadas e profissionalizantes. As universidades estão sendo levadas a abrir um maior número de vagas nas áreas de ciência e tecnologia. Na pós-graduação, somente se concede verbas estatais para estudantes dessas áreas, especialmente para aqueles que fazem parte do Advanced Technical Skills Programme [Programa de Habilidades Técnicas Avançadas] que visa diretamente um fornecimento de mão-de-obra para a indústria local. As verbas do Fundo Estatal para Pesquisa também são restritas às disciplinas científicas, e mais especificamente, para as de ciências aplicadas. Há pouco ou nenhum apoio para a pesquisa pura ou básica mesmo na área científica e nenhum apoio às ciências humanas e sociais. Recentemente, quando novos postos foram aprovados para as universidades, ficaram restritos às áreas que iriam conduzir o crescimento industrial, e, aparentemente, é esse o segmento que irá se beneficiar do novo fundo estatal para ensino superior.

Muito disto é compreensível e, até certo ponto, sensato. Há uma necessidade urgente de se criar empregos e promover crescimento econômico através do desenvolvimento industrial, e isto só pode ser alcançado através da total exploração da tecnologia. É necessária então uma força de trabalho qualificada, e o sistema de ensino tem que prover uma variedade de níveis de treinamento vocacional e profissional. Além disso, cabe à educação assegurar a existência de capacidade de pesquisa para desenvolver nova tecnologia e assim acelerar o crescimento industrial.

Entretanto, existe um sério perigo nesse nível de preocupação com treinamento técnico, especialmente no que diz respeito aos jovens, que fica evidente no debate público sobre educação recentemente. Em primeiro lugar, esta preocupação tende a esconder o fato de que a sociedade demanda diferentes formas de aptidões e qualificações, que vão além do técnico e do profissionalizante. Tão importantes quanto aqueles que têm habilidades técnicas e profissionais específicas são aqueles que têm qualificações gerais e flexíveis e que podem gerar novas idéias, que podem liderar e organizar, que podem apontar caminhos para o progresso social e econômico e propor soluções para os dilemas morais e sociais que se originam no rápido desenvolvimento tecnológico. Igualmente importante, ainda, são aqueles que podem contribuir para os aspectos culturais e estéticos da vida e que podem ajudar a prover um vital contra balanço para as inúmeras forças que empurram a sociedade moderna em direção ao materialismo desmedido e ao vazio cultural.

Devemos, portanto, evitar a tentação de concentrar os recursos educacionais unicamente em áreas que aparentemente contribuiriam mais diretamente para o produto nacional bruto e empurrar jovens, independentemente de suas aptidões e preferências, para disciplinas profissionalizantes. Ao fazer isso, não estamos desrespeitando somente a individualidade daqueles cujos interesses residem em outras áreas, mas a sociedade como um todo, que é privada de uma série de habilidades que são essenciais para a sustentação das necessidades multilaterais de uma civilização desenvolvida.

E ainda mais prejudicial é o fato de que a concentração no treinamento vocacional, especialmente no ensino médio, mas também no superior, leva a uma calcificação da capacidade intelectual dos estudantes e produz estreitos especialistas de limitado potencial.

Há quase 2.500 anos os gregos já defendiam que a educação deve ir além da mera transferência de habilidades técnicas, mas se concentrar, acima de tudo, no treinamento da mente e no desenvolvimento de poder intelectual. Essas idéias deram origem ao modelo liberal de educação, que foi o cerne da filosofia educacional ocidental por dois milênios. Esse modelo se sustenta basicamente na idéia de que a educação deve primeiramente prover uma ampla base de conhecimento sobre o homem e seu mundo, o que irá assegurar a compreensão de uma gama de áreas do conhecimento como a linguagem, a matemática, as ciências naturais, o passado do homem e suas realizações criativas e intelectuais. No mundo moderno, essa gama de áreas deveria, na minha opinião, estender-se para incluir a informática e a tecnologia básica.

O ideal liberal promove também o desenvolvimento das capacidades mentais, o poder da fala e da comunicação, o poder da argumentação e da análise, as faculdades criativas e estéticas. E tem uma dimensão ética, enquanto aponta para desenvolver um senso de responsabilidade social e moral no tratamento com o indivíduo e com a sociedade como um todo.

Os objetivos e méritos educacionais do ideal liberal resistiram ao teste de séculos e não deveriam precisar de qualquer defesa. Ele busca, acima de tudo, preparar as pessoas para a vida, e não apenas para o trabalho. Ele se preocupa em ajudar as pessoas a aproveitar o máximo da vida, a explorar a grande riqueza cultural e intelectual da sociedade moderna, e a ter suporte intelectual e conhecimento essencial para serem participantes dos acontecimentos e não meros espectadores. Não está mais em voga falar sobre os aspectos de auto-enriquecimento da educação. Entretanto, deve-se ter em mente que existe vida além do trabalho e a educação deve preparar os jovens para tirar o máximo de proveito das oportunidades e permitir o máximo de proveito da vida.

Entretanto o ideal liberal também busca prover qualificações e habilidades extremamente práticas, mas acima de tudo, todo conhecimento se apóia no poder intelectual, pela capacidade de compreensão, pela habilidade de argumentar e analisar pela comunicação, por uma proficiência intelectual geral que é a fonte da criatividade, da geração de novas idéias e que conduz as pessoas justamente para novas conhecimentos dando continuidade assim ao progresso.

Estas são as qualidades que representam o real poder da mente; são os mais importantes recursos que uma nação pode ter e os melhores meios de manter a vitalidade e criatividade que são tão essenciais ao bem-estar geral da sociedade, e, finalmente produzir as novas idéias e o espírito de inovação sobre o qual nós ouvimos tanto falar.

Mas não há nenhum atalho para se alcançar estas metas educacionais. Elas requerem, como um primeiro passo, uma prolongada atenção para o básico, para o desenvolvimento de um conhecimento básico e de habilidades básicas, através de um currículo de matérias gerais obrigatórias que cubram as áreas anteriormente mencionadas, matérias que sejam ensinadas através de métodos que desafiem a mente e que objetivem a expansão da proficiência verbal e mental.

Esta é a forma de educação que eu acredito que deveria ter continuidade no ensino médio. O treinamento vocacional ou mesmo a introdução de matérias aplicadas ou semi-vocacionais em qualquer escala significativa nessa etapa é totalmente prematura, e limita as oportunidades dos estudantes de atingir seu potencial intelectual máximo e de manter suas opções abertas. Estudantes obviamente têm aptidões diferentes e diferentes níveis de habilidade, e um programa único de ensino pode não ser apropriado para todos os alunos. Deveria haver um direcionamento através de uma sensível variação curricular, como algumas matérias optativas. Mas eu acredito que a grande massa de alunos deve se beneficiar com a concentração em áreas centrais do aprendizado no desenvolvimento de habilidade básicas no ensino médio. Estudantes não deixam de aprender quando saem da escola e a escola não deveria se preocupar em prover um produto pronto, mas sim com a capacidade de se aprender continuamente. Esse é o padrão educacional em países como a Suécia e o Japão e essa tendências está ganhando força em muitos outros países. Já o Relatório Culliton recomenda que se tome justamente a direção oposta - uma retrógrada e decadente visão de educação.

Eu iria ainda mais adiante argumentando que mesmo no ensino superior deve haver uma contínua ênfase no macro, e no amplo desenvolvimento de habilidades mentais. As universidades falham em suas responsabilidades se concebem os programas de seus cursos de maneira restrita ou se propõem a treinar especialistas num único assunto. Mesmo nos cursos profissionalizantes, onde o conhecimento especializado é o elemento predominante, para que se tenha total proveito desses conhecimentos, eles devem ser precedidos de uma compreensão geral do conteúdo e da metodologia envolvidos na disciplina, o que necessariamente inclui o conhecimento dos fundamentos de matérias complementares ou relacionadas.

Entretanto, na área das ciências humanas, o currículo universitário deveria ser definitivamente não-profissionalizante e não-vocacional, com ênfase tanto na amplitude como na profundidade e com foco na continuidade do desenvolvimento das capacidades conceituais e analíticas, comunicativas e, ainda, na proficiência mental, a qual é o propósito primordial do ensino superior como demonstrou sabiamente Newman. Essa é uma forma de ensino superior que é essencial para o bem-estar geral de uma sociedade, que complementa o treinamento profissional especializado com habilidades mais versáteis e com perspectiva de desenvolvimento resultando da ênfase no estudo das relações e sistemas humanos bem como nas realizações criativas e culturais humanas. É este modelo de ensino que tem mais chances de prover as mais inovadoras idéias necessárias para sustentar a vitalidade de qualquer empreitada, e que tem ainda maiores chances de manter o crucial balanço entre progresso material e desenvolvimento das dimensões social, ética, intelectual e cultural da vida nas sociedades modernas.

Os acontecimentos dos anos noventa tornaram mais necessário que nunca resistir à tentação de se introduzir treinamento vocacional ou especialização excessiva num estágio muito inicial ou de se concentrar todos os recursos educacionais num único âmbito de habilidades ou numa área particular de especialidade. Os jovens de hoje devem dar conta de uma realidade em que o conhecimento está em contínua e veloz expansão, em que a tecnologia está constantemente se desenvolvendo, em que as condições e as demandas de trabalho e as habilidades por ele requeridas estão constantemente mudando num mundo industrial e profissional que mais do que nunca necessita de idéias inovadoras e produtivas. A dimensão internacional também está crescendo, o que requer que as pessoas tenham a capacidade de mover-se internacionalmente, de se adaptar a diferentes condições e a lidar com diferentes línguas, culturas e ambientes de trabalho.

Estas condições requerem acima de tudo, a capacidade de aprendizado contínuo, de aperfeiçoar habilidades já existentes e de adquirir novas, aprender novos idiomas, de adaptar-se a novos desenvolvimentos ou mesmo a carreiras totalmente diferentes. Quanto mais amplas são as bases educacionais, e mais variada a experiência intelectual, mais desenvolvidas estarão as faculdades intelectuais e maiores chances se terá com esses novos desafios.

Devemos, portanto, resistir às tendências para os atalhos e para o pragmatismo estreito na educação. Devemos resistir à introdução do treinamento profissional-vocacional num estágio ou numa escala que possa impedir a comunicação dessa larga e vital base de conhecimento e o desenvolvimento de habilidades mentais básicas. E devemos igualmente resistir à estrita especialização no nível superior e à pressão de empurrar os alunos para a trilha educacional ao invés de deixá-los seguir suas aptidões naturais e desenvolver seu poder intelectual mais amplamente. Apenas dessa forma podem ser desenvolvidos e explorados a variedade de talentos e habilidades criativas dos jovens para que, assim, eles possam suprir as várias demandas da sociedade moderna.

A conexão entre tudo isso e o mundo de Grécia e Roma reside no fato de que, no mundo de hoje, onde o poder do intelecto é visto justamente como a maior fonte de poder e onde, para usar a frase de Churchill, os novos impérios serão os impérios da mente, acredito que os Estudos Clássicos são mais relevantes que nunca, tanto no ensino médio como no superior, para se satisfazer as necessidades do estudante moderno.

O grego e o latim não são meras disciplinas; eles representam todo um mundo e envolvem uma grande variedade de assuntos como linguagem, literatura, história e história política, social, militar e econômica e cultural, filosofia, religião, arte e arqueologia. Eles permitem aos estudantes o contato com muitas das principais áreas das ciências humanas, no contexto de uma brilhante civilização que tem coerência, completude e unidade e que adquire ainda maior importância pelo simples fato de ter formado as fundações da nossa própria civilização.

Os gregos e romanos desenvolveram e aperfeiçoaram todos os principais gêneros da nossa literatura. Seus sistemas jurídico e político deram origem aos princípios de justiça, liberdade política e governo democrático que ainda regem e constituem as democracias ocidentais. Suas realizações na filosofia foram de suma importância e tiveram influência predominante nos estudos filosóficos e no pensamento cristão até os tempos modernos. A arte e arquitetura greco-romanas continuam a fascinar e a atrair imitações. Resumindo, há muito pouco sobre a vida e as realizações da humanidade que não possa ser apreendido a partir do estudo do mundo clássico e há pouco no nosso próprio modo de vida e na nossa experiência intelectual e cultura que não seja alicerçado naquele mundo.

E, além de tudo isso, há a fascinação dos idiomas clássicos. Seus valores educacionais são conhecidos e incontestáveis. Eles são o portal de uma literatura de extraordinária originalidade e talento. Extremamente flexionados, sintaticamente complexos, eles desenvolveram tanto uma literatura quanto uma retórica de poder, clareza, sutileza e elegância incomparáveis. Eles são os meios mais eficazes para a compreensão da estrutura de uma língua e da importância da expressão clara e precisa e do sentido de estilo.

[Comentário: seria exagerado dizer que grego e latim são "os meios mais eficazes para a compreensão da estrutura de uma língua e da importância da expressão clara e precisa e do sentido de estilo", mas sem dúvida estão entre os meios eficazes de alcançarmos também esse objetivo, especialmente pelo fato de que historicamente a gramática tradicional, como é mantida até hoje no ensino do português e de outras línguas, e seus conceitos, terem sido criados entre os gregos e para a compreensão da língua grega antiga.]

Há obviamente muitos outros benefícios paralelos resultantes do conhecimento de grego e latim e que derivam da influência deles no desenvolvimento de civilização européia. O grego proveu a maior parte de nosso vocabulário científico e muito de nossa terminologia literária e filosófica. O latim deu origem aos idiomas românicos e contribuiu em grande proporção para o vocabulário do inglês. Permaneceu o idioma internacional da Europa até as aproximadamente 800 d.C. Era o idioma da expressão literária até o século XIV e permaneceu o idioma de ensaios filosóficos e teológicos e de discussões intelectuais até o século XVII. É, portanto de grande valor para qualquer um que estude uma língua românica bem como qualquer aspecto do pensamento, da história ou da literatura renascentista ou medieval, e ainda, indispensável a quem quer que estude de maneira aprofundada qualquer dessas áreas.

Quando se vê o caráter rigoroso e interdisciplinar dos Estudos Clássicos, seu mérito intrínseco e importância histórica, surge a pergunta: como se pode melhor atingir as metas do ideal liberal de educação que pela exposição a uma cultura brilhante que constitui um microcosmo de vida humana e provê um meio extremamente atraente para apresentar os estudantes a muitas áreas do conhecimento? De que outra forma se pode melhor incutir nos alunos as habilidades lingüísticas e verbais demandadas pelas condições modernas?

De que outra forma se poderia melhor estimular e fortalecer as faculdades críticas e analíticas dos alunos bem como o poder da imaginação que pelo estudo do período de maior criatividade e originalidade na história intelectual e literária européia?

[Comentário: novamente não consideramos acertado colocar os Estudos Clássicos como a melhor forma de alcançar esses objetivos, mas como uma entre várias formas igualmente aptas, como o estudo filosófico ou a leitura dos grandes clássicos da literatura ocidental, como Dante, Camões, Cervantes, Shakespeare, Machado de Assis, Fernando Pessoa, Guimarães Rosa, etc.]

E de que outra forma os alunos poderiam melhor alcançar a compreensão da herança cultural e intelectual e dos sistemas e pensamentos sociais, políticos e éticos que regem suas vidas que pelo estudo da evolução dessa herança e desses sistemas e pensamentos?

Deve-se considerar, entre algumas das implicações do desaparecimento dos estudos clássicos nas nossas escolas e universidades, a perda da oportunidade dos jovens de terem acesso a uma civilização gloriosa, a dissociação do passado, a ignorância da continuidade e das constâncias da história ocidental. Como observou Cícero, ser ignorante do que aconteceu antes do seu nascimento é permanecer criança para sempre. Esta noção deveria ganhar ainda mais crédito nesta época em que tanto se valorizam nossas heranças e tanto dinheiro é gasto para preservá-la e promovê-la. Eu aplaudo essas iniciativas. Entretanto, além da noção de herança nacional e da importância do senso de identidade que ela provê, está uma mais ampla herança, cujas raízes estão profundamente arraigadas nas nossas vidas e culturas. Esta última também merece certamente ser preservada.
Os Estudos Clássicos foram um crucial e valorizado elemento do nosso currículo educacional do ensino médio e superior durante muitos séculos. Não há nada na natureza dos nossos tempos que tenha diminuído esse valor. Ao contrário, a crescente necessidade de habilidades mais versáteis, de agudez mental e criatividade, que são justamente as metas do ideal liberal, esse deveria aumentar. Essa é a mensagem que precisa ser veementemente dita e repetida.

DIREITO AUTORAIS: todo o material publicado na Classics Ireland é protegido por direitos autorais. A responsabilidade e a propriedade dos direitos autorais ficam a cargo do autor de cada artigo. ISSN 0791-9417
Original: The Classics in an Age of Innovation and Technology . T. N. Mitchell. Faculdade de Trinity, Dublin
In: CLASSICS IRELAND 1994 Volume 1, University College Dublin, Ireland.