Original:
The Classics in an Age of Innovation and Technology .
T. N. Mitchell. Faculdade de Trinity, Dublin
In:
CLASSICS IRELAND 1994 Volume 1, University College Dublin, Ireland.
Tradução: Elisa de Carneiro Moraes,
monitora de Estudos Clássicos I / UFPR 2003.
palestra
proferida pelo Prof. Dr. Mitchell, Reitor da Faculdade de
Trinity e Presidente Honorário da Associação de Estudos Clássicos
da Irlanda, à Conferência Inaugural da Associação
Clássica da Irlanda, no Centro da Indústria
(University
College Dublin), em 25 se março
de 1993.
Há
uma geração, o grego e o latim eram matérias
obrigatórias no currículo da maioria das escolas
de ensino médio irlandesas e ocupavam um lugar central
dentro das faculdades de ciências humanas das universidades.
Seu valor educacional era aceito sem questionamentos e eram
vistos como a base ideal para uma variedade das carreiras.
Os
últimos trinta anos trouxeram uma mudança dramática,
não somente na Irlanda, mas em todo o mundo ocidental.
O grego praticamente desapareceu de nossas escolas de ensino
médio e o latim passou a ser estudado somente por uma
pequena porcentagem de estudantes do segundo grau. As razões
são muitas e bem conhecidas. O rápido desenvolvimento
industrial nos anos 60, pôs uma nova ênfase nos
estudos técnicos e científicos e trouxe uma
expansão significativa no número de disciplinas
oferecidas nestas áreas. As matérias comerciais
também aos poucos foram se estabelecendo nos novos
currículos. A introdução do ensino gratuito
em 1967 propiciou a existência de um corpo mais heterogêneo
de estudantes e a necessidade de prover uma maior variedade
de matérias para diferentes habilidades e interesses.
Isso deu um impulso adicional aos estudos técnicos
e comerciais, e abriu espaço nos currículos
até mesmo para atividades manuais. O ingresso na Comunidade
Européia (hoje União Européia) garantiu
um novo interesse nas línguas continentais, e o alemão,
o espanhol e o italiano começaram a aparecer em muitas
escolas ao lado do francês.
Tudo
isto significou uma grade bastante abarrotada. Matérias
como o grego e latim tiveram que ceder espaço aos recém-chegados
e competir com eles. E elas não tiveram um bom desempenho
nestas circunstâncias. Uma nova preocupação
com o crescimento econômico e o avanço tecnológico
bem como uma nova noção de relevância
e utilidade na educação focalizou o ensino nos
meios mais rápidos de aquisição de habilidades
específicas para o mercado e questionou o valor de
todos os estudos que tinham uma aura acadêmica e que
produziriam mais uma elite cultural e intelectual que uma
força de trabalho tecnicamente eficiente e tecnologicamente
inovadora. Os estudos clássicos, que lidam com um passado
e línguas remotas, não teriam provável
utilidade em Bruxelas e nas salas de aulas européias
começaram a soar deslocados, fora das necessidades
da nova era e da nova Europa.
Houve
ainda outros fatos, nos anos sessenta, que debilitaram ainda
mais a situação dos estudos clássicos
no sistema de ensino. Seminários católico-romanos,
em razão do uso do vernáculo [= a língua
do país, no Brasil, o português] na liturgia,
e ansiosos por excluir o menor número de pessoas possível,
retirou o latim das exigências de admissão. Isso
trouxe um rápido declínio no número de
estudantes de latim, particularmente nas faculdades diocesanas.
Um golpe ainda mais sério deu-se nos anos setenta,
quando as universidades, em parte influenciadas pelos insistentes
questionamentos sobre os pressupostos e diretrizes educacionais
e por uma antipatia geral contra todo tipo de pré-requisito,
deixou de exigir o latim como pré-requisito para matrícula.
Ficou cada vez mais difícil persuadir o estudantes
a escolher o grego ou o latim numa gama extensiva de matérias
disponíveis, e ainda, persuadir os administradores
escolares para continuar oferecendo e promovendo essas matérias.
Estes
fatos obviamente afetaram, num segundo plano, a posição
dos Estudos Clássicos dentro das universidades. Os
números despencaram porque poucos estudantes entraram
na universidade com qualquer conhecimento dos idiomas ou do
mundo clássico. Os Departamentos de Estudos Clássicos
responderam enérgica e imaginativamente com cursos
intensivos de idioma para iniciantes e novas habilitações,
mas eles tiveram que enfrentar as novas percepções
de relevância e utilidade e o freqüente descaso
do governo, das agencias financiadoras e até mesmo
das autoridades universitárias. Foi uma batalha difícil
e houve algumas grandes perdas.
E
a batalha ainda está longe de terminar. Resta ainda
um sério risco de que, num segundo plano, os estudos
clássicos fiquem limitados a um grupo pequeno e seleto
de escolas e que, em muitas universidades, sobrevivam apenas
frágil e restritamente. A razão para meu pessimismo
é que, enquanto há um consenso crescente de
que a educação continua assumindo maior importância
na realização da satisfação pessoal,
do sucesso profissional e do avanço do bem-estar geral
de sociedade, o nível de pragmatismo e do estreito
utilitarismo, evidentemente presente no pensamento educacional,
está aumentando ao invés de diminuir.
O
desenvolvimento econômico está se tornando mais
dependente que nunca do domínio e da exploração
da tecnologia. Isso continua aumentando a pressão para
uma maior ênfase no treinamento técnico, num
segundo plano, e em ciência e tecnologia, num terceiro
plano. Essa pressão é elevada ainda mais pelo
fato que a revolução tecnológica mudou
o caráter do mercado de trabalho e criou uma severa
escassez de trabalho em muitas partes do mundo. Isso resultou
numa compreensível preocupação com a
geração de empregos e com o desenvolvimento
industrial necessário para gerá-los e em assegurar
aos jovens as habilidades técnicas para contribuir
em tal desenvolvimento e assegurar o próprio emprego
em uma era tecnológica.
Há,
portanto, mais do que nunca, por parte dos governos, da industria,
dos pais, de alguns pedagogos e de um excessivo número
de estudos, tanto da Comunidade Européia como nacionais,
um preconceito poderoso em favor de um currículo educacional
que tenha como objetivo principal a transmissão, pelo
caminho mais curto e rápido, de habilidades técnicas
que tenham uma aplicação prática imediata
e específica. Alega-se que estudantes devem deixar
a escola de ensino médio com um alto nível de
habilidades vocacionais, especialmente aqueles alunos que
não irão para a universidade, e que aqueles
que irão, se formarão com uma qualificação
completa e adequada para o mercado de trabalho.
Esta
abordagem da educação é bem ilustrada
pelo tom geral e pelas recomendações do Relatório
Culliton. O Relatório sustenta que o presente sistema
educacional é excessivamente acadêmico, o que
parece significar que muitas das matérias ensinadas
são não-técnicas e não-vocacionais.
Ele rejeita o valor de tal educação acadêmica
afirmando que esta “provê uma base pobre para
um futuro treinamento vocacional ou industrial”. E prossegue,
estabelecendo que “o necessário agora é
concentrar-se na eficiência da educação
e do sistema de treinamento adequando-os à necessidade
de mão de obra para o desenvolvimento industrial. Um
grande esforço para reverter a tendência dos
últimos anos e por uma nova ênfase no treinamento
vocacional e técnico é a única atitude
que pode trazer benefícios em termos de progresso industrial.
O
Green Paper é menos parcial na sua abordagem e defende
um equilíbrio entre os setores tecnológico e
das ciências humanas, mas ainda assim dá ênfase
às expressões "empreendimento" e "tecnologia",
e aos meios pelos quais o sistema educacional contribui mais
diretamente ao desenvolvimento econômico.
Há
ainda uma pressão particular para se privilegiar matérias
aplicadas e profissionalizantes. As universidades estão
sendo levadas a abrir um maior número de vagas nas
áreas de ciência e tecnologia. Na pós-graduação,
somente se concede verbas estatais para estudantes dessas
áreas, especialmente para aqueles que fazem parte do
Advanced Technical Skills Programme [Programa de Habilidades
Técnicas Avançadas] que visa diretamente um
fornecimento de mão-de-obra para a indústria
local. As verbas do Fundo Estatal para Pesquisa também
são restritas às disciplinas científicas,
e mais especificamente, para as de ciências aplicadas.
Há pouco ou nenhum apoio para a pesquisa pura ou básica
mesmo na área científica e nenhum apoio às
ciências humanas e sociais. Recentemente, quando novos
postos foram aprovados para as universidades, ficaram restritos
às áreas que iriam conduzir o crescimento industrial,
e, aparentemente, é esse o segmento que irá
se beneficiar do novo fundo estatal para ensino superior.
Muito
disto é compreensível e, até certo ponto,
sensato. Há uma necessidade urgente de se criar empregos
e promover crescimento econômico através do desenvolvimento
industrial, e isto só pode ser alcançado através
da total exploração da tecnologia. É
necessária então uma força de trabalho
qualificada, e o sistema de ensino tem que prover uma variedade
de níveis de treinamento vocacional e profissional.
Além disso, cabe à educação assegurar
a existência de capacidade de pesquisa para desenvolver
nova tecnologia e assim acelerar o crescimento industrial.
Entretanto,
existe um sério perigo nesse nível de preocupação
com treinamento técnico, especialmente no que diz respeito
aos jovens, que fica evidente no debate público sobre
educação recentemente. Em primeiro lugar, esta
preocupação tende a esconder o fato de que a
sociedade demanda diferentes formas de aptidões e qualificações,
que vão além do técnico e do profissionalizante.
Tão importantes quanto aqueles que têm habilidades
técnicas e profissionais específicas são
aqueles que têm qualificações gerais e
flexíveis e que podem gerar novas idéias, que
podem liderar e organizar, que podem apontar caminhos para
o progresso social e econômico e propor soluções
para os dilemas morais e sociais que se originam no rápido
desenvolvimento tecnológico. Igualmente importante,
ainda, são aqueles que podem contribuir para os aspectos
culturais e estéticos da vida e que podem ajudar a
prover um vital contra balanço para as inúmeras
forças que empurram a sociedade moderna em direção
ao materialismo desmedido e ao vazio cultural.
Devemos,
portanto, evitar a tentação de concentrar os
recursos educacionais unicamente em áreas que aparentemente
contribuiriam mais diretamente para o produto nacional bruto
e empurrar jovens, independentemente de suas aptidões
e preferências, para disciplinas profissionalizantes.
Ao fazer isso, não estamos desrespeitando somente a
individualidade daqueles cujos interesses residem em outras
áreas, mas a sociedade como um todo, que é privada
de uma série de habilidades que são essenciais
para a sustentação das necessidades multilaterais
de uma civilização desenvolvida.
E
ainda mais prejudicial é o fato de que a concentração
no treinamento vocacional, especialmente no ensino médio,
mas também no superior, leva a uma calcificação
da capacidade intelectual dos estudantes e produz estreitos
especialistas de limitado potencial.
Há
quase 2.500 anos os gregos já defendiam que a educação
deve ir além da mera transferência de habilidades
técnicas, mas se concentrar, acima de tudo, no treinamento
da mente e no desenvolvimento de poder intelectual. Essas
idéias deram origem ao modelo liberal de educação,
que foi o cerne da filosofia educacional ocidental por dois
milênios. Esse modelo se sustenta basicamente na idéia
de que a educação deve primeiramente prover
uma ampla base de conhecimento sobre o homem e seu mundo,
o que irá assegurar a compreensão de uma gama
de áreas do conhecimento como a linguagem, a matemática,
as ciências naturais, o passado do homem e suas realizações
criativas e intelectuais. No mundo moderno, essa gama de áreas
deveria, na minha opinião, estender-se para incluir
a informática e a tecnologia básica.
O
ideal liberal promove também o desenvolvimento das
capacidades mentais, o poder da fala e da comunicação,
o poder da argumentação e da análise,
as faculdades criativas e estéticas. E tem uma dimensão
ética, enquanto aponta para desenvolver um senso de
responsabilidade social e moral no tratamento com o indivíduo
e com a sociedade como um todo.
Os
objetivos e méritos educacionais do ideal liberal resistiram
ao teste de séculos e não deveriam precisar
de qualquer defesa. Ele busca, acima de tudo, preparar as
pessoas para a vida, e não apenas para o trabalho.
Ele se preocupa em ajudar as pessoas a aproveitar o máximo
da vida, a explorar a grande riqueza cultural e intelectual
da sociedade moderna, e a ter suporte intelectual e conhecimento
essencial para serem participantes dos acontecimentos e não
meros espectadores. Não está mais em voga falar
sobre os aspectos de auto-enriquecimento da educação.
Entretanto, deve-se ter em mente que existe vida além
do trabalho e a educação deve preparar os jovens
para tirar o máximo de proveito das oportunidades e
permitir o máximo de proveito da vida.
Entretanto
o ideal liberal também busca prover qualificações
e habilidades extremamente práticas, mas acima de tudo,
todo conhecimento se apóia no poder intelectual, pela
capacidade de compreensão, pela habilidade de argumentar
e analisar pela comunicação, por uma proficiência
intelectual geral que é a fonte da criatividade, da
geração de novas idéias e que conduz
as pessoas justamente para novas conhecimentos dando continuidade
assim ao progresso.
Estas
são as qualidades que representam o real poder da mente;
são os mais importantes recursos que uma nação
pode ter e os melhores meios de manter a vitalidade e criatividade
que são tão essenciais ao bem-estar geral da
sociedade, e, finalmente produzir as novas idéias e
o espírito de inovação sobre o qual nós
ouvimos tanto falar.
Mas
não há nenhum atalho para se alcançar
estas metas educacionais. Elas requerem, como um primeiro
passo, uma prolongada atenção para o básico,
para o desenvolvimento de um conhecimento básico e
de habilidades básicas, através de um currículo
de matérias gerais obrigatórias que cubram as
áreas anteriormente mencionadas, matérias que
sejam ensinadas através de métodos que desafiem
a mente e que objetivem a expansão da proficiência
verbal e mental.
Esta
é a forma de educação que eu acredito
que deveria ter continuidade no ensino médio. O treinamento
vocacional ou mesmo a introdução de matérias
aplicadas ou semi-vocacionais em qualquer escala significativa
nessa etapa é totalmente prematura, e limita as oportunidades
dos estudantes de atingir seu potencial intelectual máximo
e de manter suas opções abertas. Estudantes
obviamente têm aptidões diferentes e diferentes
níveis de habilidade, e um programa único de
ensino pode não ser apropriado para todos os alunos.
Deveria haver um direcionamento através de uma sensível
variação curricular, como algumas matérias
optativas. Mas eu acredito que a grande massa de alunos deve
se beneficiar com a concentração em áreas
centrais do aprendizado no desenvolvimento de habilidade básicas
no ensino médio. Estudantes não deixam de aprender
quando saem da escola e a escola não deveria se preocupar
em prover um produto pronto, mas sim com a capacidade de se
aprender continuamente. Esse é o padrão educacional
em países como a Suécia e o Japão e essa
tendências está ganhando força em muitos
outros países. Já o Relatório Culliton
recomenda que se tome justamente a direção oposta
- uma retrógrada e decadente visão de educação.
Eu
iria ainda mais adiante argumentando que mesmo no ensino superior
deve haver uma contínua ênfase no macro, e no
amplo desenvolvimento de habilidades mentais. As universidades
falham em suas responsabilidades se concebem os programas
de seus cursos de maneira restrita ou se propõem a
treinar especialistas num único assunto. Mesmo nos
cursos profissionalizantes, onde o conhecimento especializado
é o elemento predominante, para que se tenha total
proveito desses conhecimentos, eles devem ser precedidos de
uma compreensão geral do conteúdo e da metodologia
envolvidos na disciplina, o que necessariamente inclui o conhecimento
dos fundamentos de matérias complementares ou relacionadas.
Entretanto,
na área das ciências humanas, o currículo
universitário deveria ser definitivamente não-profissionalizante
e não-vocacional, com ênfase tanto na amplitude
como na profundidade e com foco na continuidade do desenvolvimento
das capacidades conceituais e analíticas, comunicativas
e, ainda, na proficiência mental, a qual é o
propósito primordial do ensino superior como demonstrou
sabiamente Newman. Essa é uma forma de ensino superior
que é essencial para o bem-estar geral de uma sociedade,
que complementa o treinamento profissional especializado com
habilidades mais versáteis e com perspectiva de desenvolvimento
resultando da ênfase no estudo das relações
e sistemas humanos bem como nas realizações
criativas e culturais humanas. É este modelo de ensino
que tem mais chances de prover as mais inovadoras idéias
necessárias para sustentar a vitalidade de qualquer
empreitada, e que tem ainda maiores chances de manter o crucial
balanço entre progresso material e desenvolvimento
das dimensões social, ética, intelectual e cultural
da vida nas sociedades modernas.
Os
acontecimentos dos anos noventa tornaram mais necessário
que nunca resistir à tentação de se introduzir
treinamento vocacional ou especialização excessiva
num estágio muito inicial ou de se concentrar todos
os recursos educacionais num único âmbito de
habilidades ou numa área particular de especialidade.
Os jovens de hoje devem dar conta de uma realidade em que
o conhecimento está em contínua e veloz expansão,
em que a tecnologia está constantemente se desenvolvendo,
em que as condições e as demandas de trabalho
e as habilidades por ele requeridas estão constantemente
mudando num mundo industrial e profissional que mais do que
nunca necessita de idéias inovadoras e produtivas.
A dimensão internacional também está
crescendo, o que requer que as pessoas tenham a capacidade
de mover-se internacionalmente, de se adaptar a diferentes
condições e a lidar com diferentes línguas,
culturas e ambientes de trabalho.
Estas
condições requerem acima de tudo, a capacidade
de aprendizado contínuo, de aperfeiçoar habilidades
já existentes e de adquirir novas, aprender novos idiomas,
de adaptar-se a novos desenvolvimentos ou mesmo a carreiras
totalmente diferentes. Quanto mais amplas são as bases
educacionais, e mais variada a experiência intelectual,
mais desenvolvidas estarão as faculdades intelectuais
e maiores chances se terá com esses novos desafios.
Devemos,
portanto, resistir às tendências para os atalhos
e para o pragmatismo estreito na educação. Devemos
resistir à introdução do treinamento
profissional-vocacional num estágio ou numa escala
que possa impedir a comunicação dessa larga
e vital base de conhecimento e o desenvolvimento de habilidades
mentais básicas. E devemos igualmente resistir à
estrita especialização no nível superior
e à pressão de empurrar os alunos para a trilha
educacional ao invés de deixá-los seguir suas
aptidões naturais e desenvolver seu poder intelectual
mais amplamente. Apenas dessa forma podem ser desenvolvidos
e explorados a variedade de talentos e habilidades criativas
dos jovens para que, assim, eles possam suprir as várias
demandas da sociedade moderna.
A
conexão entre tudo isso e o mundo de Grécia
e Roma reside no fato de que, no mundo de hoje, onde o poder
do intelecto é visto justamente como a maior fonte
de poder e onde, para usar a frase de Churchill, os novos
impérios serão os impérios da mente,
acredito que os Estudos Clássicos são mais relevantes
que nunca, tanto no ensino médio como no superior,
para se satisfazer as necessidades do estudante moderno.
O
grego e o latim não são meras disciplinas; eles
representam todo um mundo e envolvem uma grande variedade
de assuntos como linguagem, literatura, história e
história política, social, militar e econômica
e cultural, filosofia, religião, arte e arqueologia.
Eles permitem aos estudantes o contato com muitas das principais
áreas das ciências humanas, no contexto de uma
brilhante civilização que tem coerência,
completude e unidade e que adquire ainda maior importância
pelo simples fato de ter formado as fundações
da nossa própria civilização.
Os
gregos e romanos desenvolveram e aperfeiçoaram todos
os principais gêneros da nossa literatura. Seus sistemas
jurídico e político deram origem aos princípios
de justiça, liberdade política e governo democrático
que ainda regem e constituem as democracias ocidentais. Suas
realizações na filosofia foram de suma importância
e tiveram influência predominante nos estudos filosóficos
e no pensamento cristão até os tempos modernos.
A arte e arquitetura greco-romanas continuam a fascinar e
a atrair imitações. Resumindo, há muito
pouco sobre a vida e as realizações da humanidade
que não possa ser apreendido a partir do estudo do
mundo clássico e há pouco no nosso próprio
modo de vida e na nossa experiência intelectual e cultura
que não seja alicerçado naquele mundo.
E,
além de tudo isso, há a fascinação
dos idiomas clássicos. Seus valores educacionais são
conhecidos e incontestáveis. Eles são o portal
de uma literatura de extraordinária originalidade e
talento. Extremamente flexionados, sintaticamente complexos,
eles desenvolveram tanto uma literatura quanto uma retórica
de poder, clareza, sutileza e elegância incomparáveis.
Eles são os meios mais eficazes para a compreensão
da estrutura de uma língua e da importância da
expressão clara e precisa e do sentido de estilo.
[Comentário:
seria exagerado dizer que grego e latim são "os
meios mais eficazes para a compreensão da estrutura
de uma língua e da importância da expressão
clara e precisa e do sentido de estilo", mas sem dúvida
estão entre os meios eficazes de alcançarmos
também esse objetivo, especialmente pelo fato de que
historicamente a gramática tradicional, como é
mantida até hoje no ensino do português e de
outras línguas, e seus conceitos, terem sido criados
entre os gregos e para a compreensão da língua
grega antiga.]
Há
obviamente muitos outros benefícios paralelos resultantes
do conhecimento de grego e latim e que derivam da influência
deles no desenvolvimento de civilização européia.
O grego proveu a maior parte de nosso vocabulário científico
e muito de nossa terminologia literária e filosófica.
O latim deu origem aos idiomas românicos e contribuiu
em grande proporção para o vocabulário
do inglês. Permaneceu o idioma internacional da Europa
até as aproximadamente 800 d.C. Era o idioma da expressão
literária até o século XIV e permaneceu
o idioma de ensaios filosóficos e teológicos
e de discussões intelectuais até o século
XVII. É, portanto de grande valor para qualquer um
que estude uma língua românica bem como qualquer
aspecto do pensamento, da história ou da literatura
renascentista ou medieval, e ainda, indispensável a
quem quer que estude de maneira aprofundada qualquer dessas
áreas.
Quando
se vê o caráter rigoroso e interdisciplinar dos
Estudos Clássicos, seu mérito intrínseco
e importância histórica, surge a pergunta: como
se pode melhor atingir as metas do ideal liberal de educação
que pela exposição a uma cultura brilhante que
constitui um microcosmo de vida humana e provê um meio
extremamente atraente para apresentar os estudantes a muitas
áreas do conhecimento? De que outra forma se pode melhor
incutir nos alunos as habilidades lingüísticas
e verbais demandadas pelas condições modernas?
De
que outra forma se poderia melhor estimular e fortalecer as
faculdades críticas e analíticas dos alunos
bem como o poder da imaginação que pelo estudo
do período de maior criatividade e originalidade na
história intelectual e literária européia?
[Comentário:
novamente não consideramos acertado colocar os Estudos
Clássicos como a melhor forma de alcançar esses
objetivos, mas como uma entre várias formas igualmente
aptas, como o estudo filosófico ou a leitura dos grandes
clássicos da literatura ocidental, como Dante, Camões,
Cervantes, Shakespeare, Machado de Assis, Fernando Pessoa,
Guimarães Rosa, etc.]
E
de que outra forma os alunos poderiam melhor alcançar
a compreensão da herança cultural e intelectual
e dos sistemas e pensamentos sociais, políticos e éticos
que regem suas vidas que pelo estudo da evolução
dessa herança e desses sistemas e pensamentos?
Deve-se
considerar, entre algumas das implicações do
desaparecimento dos estudos clássicos nas nossas escolas
e universidades, a perda da oportunidade dos jovens de terem
acesso a uma civilização gloriosa, a dissociação
do passado, a ignorância da continuidade e das constâncias
da história ocidental. Como observou Cícero,
ser ignorante do que aconteceu antes do seu nascimento é
permanecer criança para sempre. Esta noção
deveria ganhar ainda mais crédito nesta época
em que tanto se valorizam nossas heranças e tanto dinheiro
é gasto para preservá-la e promovê-la.
Eu aplaudo essas iniciativas. Entretanto, além da noção
de herança nacional e da importância do senso
de identidade que ela provê, está uma mais ampla
herança, cujas raízes estão profundamente
arraigadas nas nossas vidas e culturas. Esta última
também merece certamente ser preservada.
Os Estudos Clássicos foram um crucial e valorizado
elemento do nosso currículo educacional do ensino médio
e superior durante muitos séculos. Não há
nada na natureza dos nossos tempos que tenha diminuído
esse valor. Ao contrário, a crescente necessidade de
habilidades mais versáteis, de agudez mental e criatividade,
que são justamente as metas do ideal liberal, esse
deveria aumentar. Essa é a mensagem que precisa ser
veementemente dita e repetida.
DIREITO
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dos direitos autorais ficam a cargo do autor de cada artigo.
ISSN 0791-9417
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T. N. Mitchell. Faculdade de Trinity, Dublin
In:
CLASSICS IRELAND 1994 Volume 1, University College Dublin,
Ireland.