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Reading Latin     
O ensino de latim nas universidades públicas do estado de São Paulo e o método inglês Reading Latin : um estudo de caso (trecho selecionado)
profa. Charlene Martins Miotti - charlenemiotti@yahoo.com.br
Texto selecionado de Dissertação de Mestrado apresentada à UNICAMP (2006)

1.1. O MÉTODO READING LATIN

Tendo em vista os objetivos do ensino de latim nos nossos dias e a importância de uma abordagem metodológica adequada, já discutidos (5), elegemos como objeto do nosso estudo o método inglês Reading Latin, que vem ocupando lugar de destaque nas universidades estaduais de São Paulo. A obra, que já foi utilizada na Universidade Federal do Paraná (UFPR), tem sido utilizada na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) há mais de uma década e foi recentemente adotada também pela USP, tem por meta contribuir para a modernização do ensino das línguas clássicas introduzindo estratégias de ensino de
acordo com o objetivo básico delineado pelos estudos realizados na área (preparar os alunos para a leitura dos textos latinos) e com as contribuições científicas mais recentes, provindas da área da Lingüística Aplicada.

A Joint Association of Classical Teachers desenvolveu, em 1978 (6), o manual Reading Greek, tendo como ideal um método de grego atualizado e dinâmico que propiciasse a leitura de textos originais com maior rapidez e eficácia, sem suplantar o conhecimento das regras gramaticais necessárias como guia para o entendimento daqueles textos. O projeto, que congregou professores das principais universidades inglesas e americanas, foi de tal modo bem sucedido, que em 1986 (7) dois membros da equipe que idealizou o Reading Greek, Peter V. Jones e Keith C. Sidwell, lançaram um método equivalente para o latim, compartilhando os mesmos objetivos e, essencialmente, a mesma forma daquele produzido para o ensino de grego clássico: o manual Reading Latin.

Já de início, em ambos os métodos, o aluno é encorajado a trabalhar com textos de extensão considerável com a ajuda de um vocabulário disponível no início de cada lição. Em “Reading Latin: a aplicação de um método inglês de latim a alunos brasileiros”, Piqué (1994:2) assinala que “as análises de freqüência lexical tiveram certo papel na escolha desse vocabulário, mas não a ponto de retirar o colorido da língua”. Constituídos de frases curtas e simples, os primeiros textos são adaptações de comédias antigas (de Aristófanes, para o grego, e de Plauto (8), para o latim) que, ainda segundo Piqué, dão maior vivacidade ao trabalho de tradução e colocam o aluno em contato com obras literárias desde os estudos mais primários, de modo que ele passe a ter uma idéia da riqueza da literatura latina mesmo antes de poder conhecê-la através de suas formas autênticas (sem facilitações). Ao final de cada comédia, são tecidos comentários sobre as relações da obra estudada com as obras literárias que a antecederam ou sucederam até a modernidade (no caso da Aulularia, por exemplo, são apontadas semelhanças com o Díscolo de Menandro e o L'avare de Molière), propiciando importantes associações entre a cultura antiga e a moderna, bem como uma reflexão sobre a inegável influência da primeira sobre a segunda (9).

Na sua versão original inglesa, o método é dividido em dois volumes: um traz apenas os textos, o outro uma gramática acompanhada de exercícios de aplicação e o vocabulário. Uma tradução espanhola do método (cf. bibliografia) promoveu, entretanto, uma redistribuição desses materiais, reunindo os textos, os vocabulários e os exercícios num único volume, uma vez que são usados sempre em conjunto, e criando um volume específico para a gramática de referência, o que resulta em maior agilidade no trabalho em sala de aula.

O avanço a ser sublinhado por nós, em suma, é que o Reading Latin torna possível, com o auxílio do professor e dos vocabulários, que os alunos entrem em contato com o universo da tradução mais cedo. Note-se que, devido ao detalhismo dos vocabulários que dão o significado de cada palavra, mesmo as formas flexionadas das palavras variáveis e até de grupos de palavras (na forma em que elas são usadas no texto)10, o aluno não precisa, inicialmente, de qualquer conhecimento gramatical além da sua própria intuição lingüística.

Esse tipo de procedimento leva o aluno a ler em latim mais rapidamente, sublinhe-se, num latim que tenta se equiparar à linguagem de fato usada por autores romanos, introduzidas logo no início estruturas que, normalmente, só depois de muitos meses de aula lhe seriam apresentadas num manual mais tradicional. À medida que o método avança e se sucedem explicações e exercícios, os alunos vão sendo habituados às estruturas gramaticais, o vocabulário torna-se menos detalhado, os textos ganham em complexidade e a cada lição aproximam-se mais dos originais, que começam a aparecer por volta da metade do curso, sempre acompanhados de exercícios (11), notas e explicações que esclarecem as novidades
lingüísticas introduzidas.

O Reading Latin, assim, é um material que se preocupa em desenvolver a habilidade de leitura com mais rapidez do que os métodos tradicionais. Note-se que o excesso de informações gramaticais a que o estudante é exposto no começo do curso é apenas aparente, já que os aspectos que não recebem tratamento sistemático nas primeiras unidades passam quase despercebidos, por fornecer o vocabulário tudo que é necessário à leitura.

Posteriormente, ao chegar o momento de se deter sobre essas estruturas, o aluno terá recebido uma preparação por intermédio de seu efetivo uso. Os exercícios do Reading Latin oferecem, portanto, uma alternativa no que tange às tarefas tradicionais de versão e tradução: em vez de ser um trabalho reservado para depois da explanação metalingüística, pode precedê-la ou até mesmo substituí-la.

Notas

5. “Os processos usados no ensino de latim constituem, muitas vezes, a causa de não serem alcançados
os objetivos visados e aos quais se chegará através de recursos didáticos compatíveis com a finalidade da educação contemporânea”, alerta Nóbrega (1962: 102).
6. Publicado pela primeira vez em 1978, Reading Greek foi republicado com correções em 1979. A partir
desse ano, constam edições quase anuais até 1990.
7. Publicado em 1986, Reading Latin alcançou em 2005 sua 18ª edição para o volume Text e a 19ª edição
para o volume Grammar, vocabulary and exercises.
8. Em Reading Latin, encontramos adaptações de três comédias de Plauto: Aulularia, Bacchides e
Amphitruo (respectivamente, nas seções 1, 2 e 3).
9. Na primeira Semana de Estudos Clássicos da UNICAMP, a exposição de Sônia Santos (Licenciatura
em Letras, turma 2003), “O santo e a porca: uma mímesis de Plauto no nordeste brasileiro” (monografia
orientada pela Profa. Isabella Tardin Cardoso), por exemplo, nos deu indícios para considerar a influência que o método, apresentando as comédias de Plauto e os estudos intertextuais realizados sobre suas obras logo nas primeiras etapas de aprendizado, pode exercer sobre o interesse dos alunos pela Literatura Clássica e suas modernas reminiscências.
10. No vocabulário também entram locuções. Ex.: Euclionis familia – Euclio´s household (p. 1, “Running
Vocabulary for Introduction”); ante ianuam Demaeneti – before Demaenetus´ door (p. 5, “Running Vocabulary for 1A”); tutela meae familiae – protector (lit. protection) of my household (p. 6, “Running Vocabulary for 1A”). Além disso, ao final dos vocabulários fornecidos, há uma seleção de certas palavras básicas que devem ser memorizadas em cada lição, o que favorece a concentração do aluno sobre determinadas formas essenciais, das quais precisará mais tarde.
11. Aqui, o Reading Latin se diferencia em relação ao Reading Greek, pois coloca à disposição do professor um número muito maior de exercícios, ficando a seu critério quais podem ser feitos em contexto de sala de aula e quais fora dele.costuma, não sem problemas, classificá-lo

Leia o texto completo desta Dissertação de Mestrado no link abaixo:

O ensino de latim nas universidades públicas do estado de São Paulo e o método inglês Reading Latin: um estudo de caso
Autora: profa. Charlene Martins Miotti
Dissertação de mestrado apresentada à UNICAMP (em pdf)
Localização: http://libdigi.unicamp.br/document/?code=vtls000377335

Copyright © 2007 Charlene Martins Miotti