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 Grego Antigo 1
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A Língua Grega: Uma Introdução
I - A posição do grego na família das línguas indo-européias

Desde o Renascimento, mas especialmente a partir do século passado, ficou muito evidente a semelhança entre uma série de línguas diferentes, tanto do ponto de vista do vocabulário, como da morfologia. Tomemos como exemplo o termo para "pai" em diversas línguas:

inglês father
alemão Vater
latim pater
espanhol padre
francês pére
português pai
grego patér
sânscrito pitar

A concordância entre a maior parte das línguas da Europa (inclusive o grego) e outras línguas da Ásia leva à suposição de que todas essas línguas, que se tornaram diferentes com o tempo, são originárias de um mesmo idioma antigo, que tradicionalmente chamamos de indo-europeu.

Na verdade não temos qualquer testemunho escrito direto dessa língua que deu origem a todas as línguas que hoje agrupamos na chamada "família indo-européia". Portando, o que supomos desse "povo indo-europeu" tem como ponto de partida as "línguas-filhas" que conhecemos, principalmente, pelo estudo do vocabulário comum.

Dessa forma, supõe-se que, antes do V milênio a.C., existia um conjunto de tribos que falavam dialetos estreitamente relacionados e que tinham os seguintes traços comuns.

- praticavam a agricultura
- criavam bovinos, porcos e carneiros
- conheciam o cavalo (selvagem ou domesticado)

Os estudiosos ainda não estabeleceram de forma unânime a localização inicial exata dessas tribos, mas uma das possibilidades seria as estepes do sul do que hoje é a Russia, ao norte do Mar Negro (ver mapa abaixo).

Traços característicos das sociedades indo-européias seriam:

- nomadismo pastoril
- estrutura patriarcal da família
- gosto pelo saque => organização militar com vistas às conquistas

Essas características são também comuns a muitas sociedades antigas e poderiam ser sintetizadas no binômio "Migração e Conquista".

Na tentativa de explicar-se a origem comum dos indo-europeus que mais tarde ocuparam uma tão grande área geográfica, os estudiosos propuseram que a partir do local de origem teria havido um grande movimento migratório. Talvez por causa de uma seca na região que tornou os pastos cada vez mais escassos, a partir do V milênio a.C., duas correntes migratórias principais se dirigiram, uma para o ocidente, até chegar à Península Ibérica e à Grã-Bretanha, e a outra, para a Índia. No percurso dessa migração, que durou milênios, foram se desenvolvendo e diferenciando as atuais línguas indo-européias.

Alguns estudiosos consideram que o termo "migração" seria muito forte para esse deslocamento. Trata-se na verdade da progressiva e lenta ocupação de terras mais férteis, especialmente nos vales dos rios, a medida em que as já ocupadas começavam a ficar exauridas para a agricultura.

As tribos que foram para o norte da Europa deram origem às línguas germânicas, as que se dirigiram mais para o ocidente, às línguas celtas. As que se estabeleceram na Europa Central, às línguas eslavas. Já o lado oriental da migração deu origem à línguas indo-iranianas, como o persa, e chegando na Índia, ao sânscrito.

As tribos indo-européias que desceram pela Península Itálica deram origem aos romanos e à Língua Latina, que por sua vez em um novo processo de migração e conquista por toda a Europa, deu origem às atuais línguas românicas, entre as quais o Português.

II - Os Dialetos Gregos

As tribos indo-européias que desceram pela Península Balcânica deram origem ao grego. Segundo uma tradicional teoria os indo-europeus não chegaram à Grécia numa única leva. Foram na verdade ondas sucessivas de tribos que vinham do Norte, a partir aproximadamente de 2000 a.C., na seguinte seqüência:

mínios - aqueus - jônios - eólios - dórios

Cada conjunto de tribos ao chegar conquistava e forçava a assimilação ou à emigração e cada um falava uma variante diferente do grego, um "dialeto".
Como resultado temos que a Grécia antiga transformou-se em uma verdadeira colcha de retalhos de dialetos.

Outra teoria mais recente minimiza as ondas sucessivas de tribos como explicação da diferenciação dialetal que de fato encontramos nos tempos históricos e procura explicar esta situação por uma diferenciação dialetal ocorrida já em território grego. Assim o eólico o o dórico não corresponderiam a ondas de tribos eólicas e dóricas que chegaram depois, mas a um processo de diferenciação a partir das formas dialetais já existentes na Grécia.

De qualquer forma, ambas teorias tentam explicar um fato bem conhecido, que a língua grega por seus primeiros testemunhos escritos se apresenta sob múltiplas formas.

Cada região, cada cidade, tem um falar próprio. Cada gênero literário tem seu dialeto particular e cada autor trata este dialeto de uma maneira especial. (Meillet)

Os dialetos locais são agrupados em dialetos regionais e estes em grupos de dialetos.

Grupos dialetais:
1 - Jônico-ático
2- Arcado-cipriota
3- Eólico
4- Grupo ocidental (grego do noroeste e dórico)

Dialetos Gregos

Portanto é necessário ficar claro não havia na Grécia algo como uma língua nacional. Todos os dialetos são igualmente importantes do ponto de vista lingüístico. Entretanto, do ponto de vista cultural um deles sobressaiu pela importância de sua região e de sua época. Trata-se do dialeto ático, pertencente ao grupo dialetal jônico-ático e falado na cidade de Atenas. Como Atenas, nos séculos V e IV a.C., tornou-se o principal centro cultural de toda a Grécia, o ático falado nesse período, aproximadamente entre 500 e 300 a.Cé tomado como ponto de partida para o estudo do Grego antigo. É o chamado ático clássico ou grego clássico. Não só é, dentre todos os dialetos, aquele sobre o qual temos maiores informações lingüísticas, mas também é aquele que foi usado por importantes autores como os seguintes, segundo o tipo de texto:

verso: Ésquilo, Sófocles, Eurípides, Aristófanes, Menandro, etc.
prosa: Tucídides, Xenofonte, Platão, Aristóteles, Isócrates, Lísias, Demóstones, Ésquines, etc.

Ou seja, os principais textos de História, Filosofia, Oratória, Tragédia e Comédia foram escritos basicamente neste dialeto. Por esses motivos a maioria dos cursos de Grego antigo ensinam na verdade o ático clássico. Uma vez que o estudante esteja familiarizado com este dialeto, passa-se ao estudo dos demais, simplesmente apresentando as suas diferenças em relação ao ático.

Na Grécia existiam também o que chamamos de dialetos literários. Um dialeto além de estar associado a uma determinada região, podia estar associado a um determinado gênero literário, independentemente do dialeto falado por seu autor. Assim por exemplo a poesia lírica de autores como Alceu, Safo, etc., era composta em dialeto eólico. A poesia épica (Homero, Hesíodo, etc.) era composta em dialeto jônico, assim como a obra de Heródoto, a poesia de Arquíloco, a filosofia pré-socrática e os escritos médicos da escola de Hipócrates.

Homero, na verdade, é um caso especial por apresentar uma linguagem poética dita "artificial", nunca falada efetivamente em nenhum lugar por falantes-nativos, onde se encontra além do jônico, o eólico também e já alguns poucos elementos áticos. Esse "dialeto homérico" foi utilizado pelos poetas líricos que compunham elegias e iambos e no período helenístico pela "nova épica", como na poesia de Apolônio de Rodes. O dialeto ático desenvolveu-se do jônico e por isso apresentam grandes semelhanças, pertencendo ao mesmo grupo dialetal jônico-ático.

Mas o uso literário dos dialetos permitia um resultado mais complexo. Assim as partes corais das tragédias, por exemplo, eram escritas em dialeto dórico, por este estar associado tradicionalmente ao canto coral.

No período helenístico (330 a.C-330 d.C) com a difusão da cultura grega por toda a bacia do Medirrâneo se desenvolveu um novo dialeto que teria por função ser uma espécie de língua internacional, comum (gr.
koiné) a todos. O dialeto Koiné foi na época algo como o latim e o francês já foram, e como o inglês é hoje em dia.
Este dialeto foi o veículo para a tradução das escrituras do Velho Testamento feita em Alexandria por volta de 280 a.C. por um grupo de setenta eruditos judeus (por isso essa tradução recebe o nome tradicional de
Septuaginta).
Todos os livros do Novo Testamento, com exceção de Mateus, foram escritos originalmente também nessa língua comum, o dialeto grego Koiné, justamente para que tivessem a maior divulgação possível.
A base da Koiné foi o ático, mas sem "aticismos", isto é, foram eliminados os traços dialetais muito específicos, de modo a ser uma linguagem padrão de uso universal.

Este é quadro geral do que chamamos de "Grego antigo", uma língua cujos registros escritos vão desde o séc. XV a.C. (grego micênico) até o séc. VI d.C.

Já na Idade Média na Grécia falava-se o Grego bizantino (o novo centro político e cultural era agora Bizâncio), entre os séculos V d.C. e XV, e que era uma espécie de continuação da Koiné. No entanto um grande número de textos, entre eles os dos Patriarcas da Igreja, isto é, os textos patrísticos, continuaram usando a Koiné como sua linguagem.

E a partir do séc. XVI, com a tomada de Constantinopla (ex-Bizâncio) pelos turcos em 1453, surge o Grego pouco a pouco moderno, que é o falado até os dias de hoje na Grécia.
Grego antigo e moderno, portanto, são duas línguas diferentes, no entanto muito parecidas em função de uma originar-se da outra.

Veja também uma lista de algumas sub-famílias do indo-europeu e um quadro geral dos dialetos do Grego antigo

Leia agora sobre os As diferentes pronúncias do Grego Antigo

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